Esquemas

Há tempos — Limites que libertam

Fotografia em preto e branco de Renato Russo cantando ao microfone.

“Disciplina é liberdade, compaixão é fortaleza, ter bondade é ter coragem. Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa.”

O que será que Young diria?

Não podemos saber. Mas, olhando para a Terapia do Esquema, podemos encontrar nessa letra uma reflexão muito interessante sobre uma das necessidades emocionais fundamentais: a construção de limites realistas.

À primeira vista, falar em limites pode parecer falar de restrição, proibição ou perda de liberdade.

Mas talvez seja justamente o contrário.

Limites não existem apenas para nos impedir. Eles também nos organizam, nos protegem e tornam possível a convivência.

Sem limites, não aprendemos a esperar, negociar, considerar o outro, lidar com a frustração ou reconhecer que nossos desejos não são os únicos que existem.

E é justamente aí que entra a disciplina.

Disciplina não precisa significar rigidez, punição ou autoritarismo. Pode significar aprender a tolerar um “não”, esperar pelo momento adequado, sustentar uma escolha mesmo quando ela deixa de ser confortável e compreender que nem tudo o que desejamos precisa ser imediatamente realizado.

Aprender limites é também aprender liberdade.

Porque liberdade não é fazer tudo o que queremos.

É poder escolher, levando em consideração a realidade, as consequências de nossas escolhas e a existência do outro.

E então chegamos à compaixão.

Para viver em sociedade, precisamos reconhecer que o outro também sente, deseja, sofre e possui necessidades.

A compaixão nos ajuda a sair de uma perspectiva exclusivamente centrada em nós mesmos e perceber que nossas necessidades não anulam as necessidades das outras pessoas.

Talvez por isso a frase “compaixão é fortaleza” faça tanto sentido.

É preciso força para reconhecer a dor do outro.
É preciso coragem para agir com bondade quando poderíamos simplesmente impor nossa vontade.

Mas o que acontece quando essa necessidade de limites não é suficientemente desenvolvida?

Na Terapia do Esquema, falamos em Limites Prejudicados, um dos domínios de esquemas.

Esse domínio está relacionado, entre outros aspectos, à dificuldade de desenvolver autocontrole, autodisciplina, responsabilidade, reciprocidade e consideração pelos direitos e necessidades dos outros.

Algumas pessoas cresceram em ambientes excessivamente permissivos ou indulgentes, nos quais quase não havia espaço para frustração, espera ou consideração pelos limites alheios.

Outras podem ter aprendido, por diferentes experiências, que suas necessidades deveriam sempre vir primeiro.

Nesses casos, podem surgir padrões como:

“Eu preciso ter o que quero agora.”

“Não deveria precisar me esforçar para isso.”

“As regras não se aplicam a mim.”

“Se eu quero, preciso conseguir.”

Mas é importante lembrar:
isso não significa que a pessoa seja simplesmente egoísta, mimada ou irresponsável.

São padrões que podem ter sido aprendidos e que, como outros esquemas, podem ser compreendidos e transformados.

E é aí que entra o papel dos cuidadores.

Ensinar limites não significa castigar.

Também não significa controlar cada movimento da criança ou impedir que ela tenha suas próprias vontades.

Significa ensinar, gradualmente:

“Você pode querer, mas nem sempre poderá ter.”

“Você pode sentir raiva, mas não pode machucar.”

“Você pode discordar, mas precisa respeitar.”

“Você pode errar, reparar e tentar novamente.”

“Você tem direitos, mas o outro também tem.”

É ensinar a esperar.
É ensinar a negociar.
É ensinar tolerância à frustração.
É ensinar reciprocidade.
É ensinar que diferenças não são ameaças.

Limites suficientemente bons não diminuem a criança.

Eles ajudam a criança a desenvolver recursos internos para, um dia, conseguir colocar limites em si mesma.

E talvez seja justamente aí que a disciplina se transforme em liberdade.

Porque uma pessoa que consegue tolerar um “não” não precisa lutar contra todos os “nãos” da vida.

Uma pessoa que consegue esperar não precisa agir impulsivamente diante de cada desejo.

Uma pessoa que consegue considerar o outro não precisa escolher entre ser livre ou pertencer.

Ela pode fazer as duas coisas.

E talvez essa seja uma das maiores funções dos limites:
não nos ensinar apenas onde parar, mas nos ensinar a caminhar pela vida com mais liberdade, responsabilidade e consideração pelo outro.

E, sobre aquele poço...

Talvez a água de nenhuma casa seja completamente limpa.

Somos todos feitos também das histórias, excessos, faltas e imperfeições daqueles que nos ensinaram a viver.

O trabalho não é encontrar uma infância perfeita.

É compreender aquilo que recebemos, reconhecer aquilo que faltou e, quando necessário, aprender a construir em nós mesmos aquilo que não conseguimos desenvolver naquele momento.

Ver todos os textos Conversar com a Viviana