Me autorizei a chorar todos os choros guardados.
Chorei toda a saudade que eu tenho da vida que um dia eu tive.
Chorei a dor que me rasgou em mil pedaços, sem eu conseguir costurar.
Chorei a raiva de me sentir abusada, humilhada, cansada.
Chorei o amor que foi embora sem eu nunca ter vivenciado.
Chorei.
Chorei de verdade ao olhar o meu passado.
Chorei as amizades verdadeiras, as risadas nas calçadas, as roupas emprestadas, as festas que entravam pela madrugada.
Chorei as lembranças da minha avó, do cheirinho da sua pele, do dinheiro guardado no sutiã, dos beijos lançados nas despedidas enquanto os olhos podiam ver.
Chorei o sonho que eu não realizei, a esperança que eu sempre plantei e a luta que eu sempre lutei.
Chorei ao lembrar da minha infância e de como era feliz aquele universo quase sem nada, mas cheio de tudo: de amigos, de brincadeiras, de bolo de aniversário que se comia a semana inteira, de primos que mais pareciam irmãos, de amigos que mais pareciam primos, de conhecidos que se tornavam família.
Chorei ao recordar a adolescência, a música cantada com letras inimagináveis, que diziam o que sentíamos sem nunca termos dito nada:
“Quero colo,
vou fugir de casa,
posso dormir aqui com você?”
Chorei a falta que eu nem sei explicar.
Chorei a chegada dos filhos amados e a partida da casa dos pais.
Chorei lembrando do sino da igreja que anunciava a Ave Maria.
Chorei lembrando que eu chorava de rir, das piadas contadas, das risadas partilhadas, das gargalhadas escondidas, dos amigos de uma vida que nunca sabiam nada, mas que ensinavam absolutamente tudo.
Chorei pela morte antecipada de pessoas muito amadas.
Chorei.
Como eu chorei.
Chorei pelo emprego desgraçado, pelo chefe mal-humorado, por eu não ter me respeitado toda vez que eu deveria ter largado e partido pro outro lado.
Chorei pelo título da graduação, de especialista, de equilibrista.
Chorei por não dar mais conta, por não querer mais segurar, por poder me abraçar e assim me acalmar.
De uma loucura gritante que me atordoa a cada instante e que eu nem consigo explicar.
De um lugar de sofrimento e alento que acontece nesse instante, que tem brilho de diamante e peso de gigante.
Chorei por essa vida de encontros e partidas que eu terei que encarar.
E é nesse entendimento que, ainda que por um momento,
o meu choro permite me curar.